O Mercado Medieval, entre os dias 1 e 3 de agosto na vila de S. Martinho de Mouros, é o principal destaque de capa da edição de agosto do jornal Notícias de Resende. Foi um verdadeiro palco de época, numa iniciativa do Município de Resende (Portugal) em parceria com a Junta de Freguesia de S. Martinho de Mouros.
Num cenário mágico, com a Igreja Românica como pano de fundo, habitantes e visitantes puderam viajar no tempo, mergulhando na atmosfera vibrante da Idade Média. O ambiente foi marcado por mercadores trajados a rigor, música ao vivo, teatro de rua e danças exóticas, que animaram cada recanto da feira.
Na programação rica e diversificada, destaque para a atuação de grupos como “Barro Negro”, “Gaitas e Serigaitas”, os irreverentes “Bobos da Corte Heitur Andi”, os dançarinos da “Volarius Dança Medieval do Povo”, “Passos do Passado” e a envolvente “Tribo Ta-Meri”, que trouxe o exotismo das danças orientais. Histórias misteriosas ganharam vida com o Teatro Assombrado “Contos e Fábulas” e a animação foi constante com os “Viajantes do Tempo” e os malabaristas “Dzubigon”.
Um dos momentos mais emblemáticos foi o cortejo medieval, que percorreu as ruas da vila, reunindo todos os grupos de animação num desfile cheio de cor, som e emoção. Ao cair da noite, os espetáculos de fogo, em frente à Igreja Matriz, deixaram o público maravilhado.
Além da vertente cultural e artística, a feira contou com gastronomia tradicional, mercado de época, acampamentos civil e militar, mostra hospitalária com instrumentos de tortura, passeios de charrete, torneio de tiro ao arco, carrossel e jogos medievais, e até demonstrações de falcoaria com a presença da Irmandade da Coruja.
Nas palavras do presidente da Junta de Freguesia, Antônio Lucas, esta edição “foi um enorme sucesso. O entusiasmo do público e o número crescente de visitantes confirmam que este evento já é uma marca de S. Martinho de Mouros”.
Outro destaque foi a inauguração, no dia 23 de agosto, do Centro Interpretativo da Olaria de Barro Preto, na antiga Escola Primária de Fazamões, na freguesia de Paus. A ideia é homenagear e preservar uma das mais antigas tradições artesanais do concelho. Fazamões é terra de oleiros que, desde a Idade Média, moldavam o barro nas rodas, cozendo-o nas tradicionais soengas, para depois comercializarem as peças nas feiras regionais ou trocarem-nas por produtos agrícolas.
Neste espaço foi também homenageado o último oleiro de Fazamões, o Mestre Joaquim Alvelos. Está em exposição um espólio municipal de peças de olaria negra da sua autoria, perpetuando a sua memória e reconhecendo o seu papel fundamental na preservação desta arte ancestral.
O Centro Interpretativo foi inaugurado pelo presidente da Câmara Municipal de Resende, Garcez Trindade, que descerrou a placa inaugural juntamente com a filha do Mestre Joaquim, num gesto simbólico e que enaltece a herança cultural que moldou com as próprias mãos.
Destaque também para a 10ª edição da Semana Cultural de São Cipriano – “Aldeia da Música”, nos dias 11 a 16 de agosto, organizada pela Junta de Freguesia, com o apoio do Município, que voltou a encher de vida e de cultura esta freguesia de Resende, com a participação de milhares de visitantes.
Durante seis dias, as associações da freguesia promoveram concertos, exposições, tasquinhas e, este ano, para além do habitual, houve caminhadas, jogos tradicionais e outras atividades realizadas pela Associação de Valorização e Desenvolvimento Rural do Vale do Cabrum. O presidente da junta de Freguesia, Aires Ferreira, destacou o “grande empenho no que diz respeito ao associativismo”. Trata-se de “evento com marca própria” que “atrai gente de todo o país e também turistas estrangeiros que passam férias na região”.
E mais: Pelo 2º ano consecutivo, a Junta de Freguesia de Barrô, com o apoio do Município de Resende, realizou o Festival do Moscatel, nos dias 16 e 17 de agosto, que celebrou a tradição local da produção de uva moscatel, variedade autóctone da região.
E ainda a jovem de Feirão, Beatriz Rodrigues, que se destacou como a melhor aluna do Agrupamento de Escolas de Resende no último ano letivo, com uma média de 20 valores no 12º ano. Depois de terminar o secundário com excelência, ela parte para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde pretende seguir o curso de Línguas e Relações Internacionais.
Menção ao artigo do padre e historiador Joaquim Correia Duarte com o título “O Papa Leão e o Mosteiro de Cárquere”, cuja íntegra publicamos a seguir.
O título presente vai parecer a todos muito estranho, mas não é tanto assim.
Vejamos.
Como foi dito e repetido, uma e outra vez, na ocasião em que foi eleito Papa, Michel Francis Prevost é membro de uma Ordem Religiosa conhecida por Ordem Agostiniana.
Ordem Agostiniana, por seguir a “Regra” que, no século IV, o grande teólogo e famoso bispo de Hipona, no norte de África, redigiu para uso da pequena comunidade que ele próprio fundara, baseada numa vida simples, de oração, de estudo e de caridade.
Uma das interessantes normas da Regra diz-nos tudo: “O primeiro motivo porque viveis em comunidade é para habitardes juntos, com um só coração e uma só alma, voltados para Deus”.
Com os mesmos ideais, foram depois surgindo na Europa, na Alta Idade Média, sobretudo na Itália, múltiplas comunidades.
Em 1059, o Sínodo de Latrão exortou os clérigos das catedrais e das colegiadas a adoptar uma vida em comum para melhor imitarem o estilo de vida de Jesus com os Seus Apóstolos.
Tais comunidades acabaram por escolher, como regra de vida, a Regra de S. Agostinho.
Conhecidos os seus membros, por esse facto, como “Cónegos Regrantes de Santo Agostinho” – mais tarde, entre nós, também como “Frades Crúzios” ou “Frades de Santa Cruz” – estabeleceram-se tais comunidades em Portugal no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no ano 1131, por iniciativa de D. Telo, D. Teotónio e D. João Peculiar, com o apoio entusiasta de Afonso Henriques, o nosso primeiro rei.
Em oposição aos monges de Cister – os “monges brancos” – eram os seus membros conhecidos por “cónegos pretos” por usarem hábito dessa cor, com um cinto de couro e um capuz.
Tais comunidades eram um ramo da tal Ordem Agostiniana que tem o papa actual como seu membro, desde 1977, e como seu Prior Geral, de 2001 a 2013.
O que tem, então, Cárquere, a ver com isso?
Em Cárquere, terá existido um pequeno cenóbio de monges desde a Baixa Idade Média, talvez desde tempos suevos e visigóticos.
Tal cenóbio, concluída a Reconquista Cristã, provavelmente por vontade do primeiro rei de Portugal ou de seu pai, o Conde D. Henrique, terá adoptado também a regra agostiniana, já seguida pelos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e de S. Vicente de Fora, em Lisboa.
Penso em D. Afonso Henriques, não só pelo pretenso milagre (?) da sua cura em criança em Cárquere, que ele não terá esquecido, mas também por ser amigo e especial protector do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em cuja igreja fez questão de ser sepultado.
Os frades agostinianos permaneceram no mosteiro de Cárquere até ao século XVI, data em que, depois de diversas dificuldades, viram extinta a sua comunidade e substituída pelos padres da Companhia de Jesus.
Não sei se os meus leitores vêem algum interesse nesta relação do mosteiro de Cárquere com a Ordem Religiosa de que o Papa foi e é membro.
Eu vejo, e muito.
E sinto orgulho por isso.



